À la martingale
Do cesto de roupa suja ao Êxodo
Hora de sacudir os lençóis, bater a poeira desde a última vez, pegar o café e conversar. O assunto vai ser a irmandade entre dois elementos que constituem um coração obstinado. Duas faces da mesma moeda. Dois substantivos abstratos que aparentam ocupar espaços opostos, mas que atuam sempre em parelha. E eu tenho um bom exemplo para isso.
Hoje, enquanto meu filho brincava na casa da avó, entre o sacolejar do tanquinho e o enxágue dos lençóis, eu passava pelo livro do Êxodo. Durante essa odisseia, não pude deixar de notar, com uma impaciência mordaz, a insistência completamente estúpida do faraó ao impedir a saída dos hebreus. “Não era óbvio que ele iria se dar mal? Por que não evitar o desastre iminente e liberá-los depois de tantas provas do grande poder de Deus?”, pensei.
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Por sorte, uma segunda voz interferiu e me trouxe à memória um infeliz traço da alma humana: a maldade dita o ritmo enquanto a burrice concretiza os passos em direção ao precipício. E por mais óbvia que seja a destruição ao fim do caminho, a capacidade de raciocínio lógico torna-se inútil quando o cocheiro do coração é a arrogância.
Faraó era uma espécie de jogador à la martingale, porque mesmo diante de todas as derrotas, estava sempre disposto a dobrar a aposta anterior. Dono de uma personalidade ardilosa, enganadora, obstinada; de um coração enrijecido, envaidecido e arrogante. O rei recusava-se a ser marcado na história como o governante cujos deuses não eram páreos para o Deus hebreu do qual ele nunca tinha ouvido falar. Porém, acabou sendo algo pior: um marco no declínio da maior potência da época, cuja glória nunca mais foi a mesma.
De repente, as letras foram sumindo e o arquétipo virou espelho. Quantas e quantas vezes o meu coração insubmisso e mau não me conduziu às mais toscas pataquadas? Não há sistema numérico capaz de contabilizar! Eis a minha pecha mais infeliz. A lepra do meu coração. Carregando sempre um faraó no peito que conduz infalivelmente a decisões desastrosas, de fim funesto.
É interessante como a bíblia representa completa e perfeitamente a noção de clássico. Uma mulher comum e irrelevante dos confins do Ibura, séculos depois, acha-se irmanada de um rei de uma civilização antiga por causa da semelhante dureza de coração. Lembrei de um trecho do livro O risco do bordado, de Autran Dourado:
“ […] embora distantes e perdidas num passado remoto, aquelas histórias podiam ter sido com ele e uma outra menina. E João, sem perceber, ia descobrindo que as coisas e as pessoas se encadeavam numa ciranda sem fim.”
Eu já sei o fim da história, portanto, cabe a mim não dar vazão à burrice e pedir. Pedir, pedir sempre; da maldade Deus cuida. Mesmo o vaso sendo ruim, Deus é bom e se dispõe a fazer de novo.
Até a próxima tarde livre.


Sempre precisa e direta, mas também tão profunda. Você escreve e eu me vejo. Não pare!